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Memória

  • Conto - Alexandre Pontara
  • 15 de abr. de 2015
  • 4 min de leitura

Eu já te amei o suficiente... foi a conclusão que cheguei na última sexta-feira. Pensei comigo entre um silêncio e outro, enquanto as palavras saiam da minha boca trêmula e incerta. Deixar de amar alguém não é algo que se escolhe, mas se pode definir o momento em que é necessária uma ruptura para que se mantenha o mínimo de sanidade. O amor é tão indefinível que não se consegue ter certeza de quando ele começa ou termina. Você acha que não ama, mas quando vê estava amando há muito tempo, desde aquele primeiro “oi” que lhe foi dado naquela festa a que você nem pretendia ir. De alguma forma, aquele “oi” ficou incubado igual a um vírus que necessita de algumas semanas para dar sinal de vida e para o qual você não tem a menor resistência. Seguiram-se semanas até que eu me desse conta de que o que se passava comigo era muito mais intenso e profundo. E não estou falando de paixão, porque quanto a isso já estou vacinado. Falo daquele revoar de borboletas no estômago - talvez, um dos maiores clichês para se descrever o amor, mas nem por isso menos importante. Com a idade se adquire resistência e algumas muralhas se erguem com a intenção de proteger o humano de novos sofrimentos. Transformamos o coração em refém de nossas próprias desilusões. Por entre grades, ele permanece seguro, gélido, impedido de bater por outro. Mas, como todo sistema de segurança criado, este, também, é passível de falhas; cedo ou tarde alguma emoção é capaz de causar uma fissura na muralha e permitir que o vírus do amor penetre e se instale no seu coração.

E aquele vírus que me encontrou parecia ter meu nome e endereço. Instalou-se dentro de mim sem a menor cerimônia. Foi consumindo meus pensamentos e lembranças e repetindo aquele nome até a exaustão.

E assim fui me misturando com aquele desejo. Pensamentos e sobriedades da razão iam me deixando e eu me tornava um ser emotivo. O coração tem essa capacidade de emburrecer o corpo. As palavras tropeçam, a boca seca e os olhos ganham um brilho quase lisérgico.

Levei quase duas semanas para criar coragem e passar a mão no telefone para ligar. A voz que atendeu não demonstrava surpresa. Já estava à espera do telefonema e aceitou o convite para um café.

E assim, entre uma xícara e outra, entre sorrisos e palavras desconexas, descobrimos uma infinidade de pontos em comum, gostos e hobbies. O amor foi se instalando sem cerimônia. Me tornei assíduo frequentador daqueles olhos. Passei a dividir a minha cama e a deixar a casa mais organizada.

Foram meses de muito viver nos quais não havia espaço para brigas e nem pequenas discordâncias sobre o cotidiano. A casa foi deixando de ser minha e tomando a forma de vida a dois. As almofadas do sofá mudaram de cor e a poltrona que me acompanhava desde a faculdade, símbolo da minha individualidade, foi, com carinho, colocada na beira da calçada. O edredom foi trocado e meu espaço dentro do armário ficou menor. O amor ia conquistando território.

E seguindo a via dos corações comuns, fui me deixando ser dois. Fui diminuindo o consumo de carne vermelha e ela aprendendo a gostar de cerveja. Não havia mais silêncios ensurdecedores pela casa e eu já não podia mais deixar o chinelo jogado na sala. Pequenas concessões que se faz.

De forma inteligente, aprendemos a medir as palavras e respeitar o outro pela emoção que ele te traz. Amar tem dessas insignificâncias, dessas pequenices do dia a dia.

E os meses se tornaram anos. Os filhos não foram necessários. A casa estava repleta de amor, amigos e estórias romanceadas pelas paredes. Ainda mantínhamos o ritual de ir ao Parque Lage para um café no final da tarde. E o amor foi se aquietando, adquirindo uma postura de silêncios confortáveis.

E a significância da vida foi diminuindo. Não havia novas palavras para definir aquilo que já nascera indefinível. O amor braseirava como resto de fogueira em noite fria. No caminhar pelo calçadão para sentir a maré do final da tarde, o passo em silêncio, as mãos dadas e a brisa que tocava nossas faces como um beijo roubado que unia nossos pensamentos e sorrisos.

E a vida foi seguindo naquele amor tranquilo. Os olhos adquiriram sabedoria e as rugas e os vincos dela carregavam cada palavra e emoção sentida. Já não eram mais feitas de desilusões.

E no descompasso do tempo, ela seguiu. Partiu de forma tranquila numa manhã quente de verão. Partiu com a serenidade na face de quem cumpriu uma jornada feita de pura afeição e amor mútuo.

Me senti tão ínfimo na partida. A despedida foi com um boa noite e a promessa de um dia seguinte no Parque Lage. O amor tem dessas invencionices. Cobre você de vida e depois se ausenta por um período.

Segui enlutado por alguns anos, na promessa daquele último beijo e no caminhar solitário pela areia da praia. A saudade trazia palavras e poemas em um pequeno caderno que carregava sempre comigo.

Havia um sabor de alma em cada gota da imensidão do mar. Molhava os pés na tentativa de absorver pela pele cada pensamento de amor ali sentido.

E assim fui vivendo na ausência, com visitas anuais ao Parque Lage, onde sempre pedia dois cafés, um para mim e outro para ela e ali permanecia até fechar. Os olhos atentos ao relógio e a cadeira vazia.

Fui nesse desvivendo com a mente repleta de histórias. As anotações no caderninho são para lembrar da história que um dia vivemos. Me preparo para o que talvez seja o último café. Não sei se o ano que vem ainda me lembrarei deste lugar e da nossa história. Sobra a esperança de que o amor fique, mesmo que de relance, em meio à confusão de ideias. Mesmo que ele apareça só de vez quando, entre rostos sem nomes, nas fotos desconhecidas de viagens que fizemos juntos. É triste que eu tenha que dizer, neste momento, que eu já te amei o suficiente. Digo sem certeza. Digo repleto de amor. É preciso.

A ruptura com a vida se aproxima e eu preciso deixar que você prossiga. O amor, na sua invencionice, resolveu se ausentar em mim junto com as palavras, as promessas e a memória. Mas não se esqueça: eu volto a te amar assim que eu me lembrar. Me espere na chegada. Não acredito que este desviver vá durar muito.

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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