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O Homem no Armário

  • Conto - Alexandre Pontara
  • 7 de out. de 2020
  • 3 min de leitura

Fiquei sentado no escuro. Não havia luz suficiente e o calor era sufocante. Mesmo assim, permaneci num canto, procurando aconchego. Buscava uma sensação de criança, um retorno no tempo. Tempos mais felizes da minha querida juventude.

Um homem-menino.

Talvez, seja esta a classificação mais correta para mim. A crise dos trinta anos me impedia de continuar. Queria de volta a infância, o tempo perdido, uma nova chance de tentar ser diferente.

Aos vinte anos, não pensava muito nisso. Na verdade, nem buscava mais a infância. Ela permanecia distante, como se séculos fossem transpostos em uma década. Mas os trinta ...

Os trinta anos eram cruéis com a nossa juventude, nos exigiam compromisso com a vida e com os sonhos. Nos impõe a condição cultural, aquela que é transmitida de geração para geração, que nesta altura da vida, algumas etapas estejam cumpridas.

Aos trinta, já devemos estar casados, com filhos planejados e uma carreira que, supostamente, deveria estar decolando. Alguns chamam de maturidade. Para mim cheirava a cobrança do mundo. Aos vinte anos, eu não pensava nisso, vivia os dias e acreditava ter o poder de realizar tudo. Ops! Talvez, tenha lido livros de autoajuda demais. Entretanto, as frases motivadoras não tiveram o efeito desejado. Aos trinta anos, encontrava-me trancado no armário novamente. O mesmo armário para o qual costumava correr, munido de uma lanterna e um livro. Ficava lá; escondido, sonhando com o futuro e criando uma vida de fantasia, que me afastava do mundo e da minha realidade cotidiana. O armário era meu refúgio, meu lugar secreto, onde todos os sonhos de criança se realizavam. Dentro dele, eu vivia minha “Terra do Nunca”, ao lado de Peter Pan e os garotos perdidos. Ah! Eu também era um garoto perdido. Mesmo, empoeirado, escuro e cheirando a naftalina, o armário tinha sabor de aventura. Era minha porta de entrada para a Terra do Nunca, sempre ensolarada, divertida, com suas lutas com os piratas. Naquele armário, meus sonhos e desejos permaneciam trancados. Era meu mundo, onde nenhum adulto podia entrar. Deixava um cartazete, do lado de fora, escrito em letras garrafais: ADULTO NÃO ENTRA!

O mundo permanecia alheio ao que se passava dentro dele. Às vezes, me cansava da Terra do Nunca e partia para o País das Maravilhas. Podia passar horas sentado à mesa do Chapeleiro, tomando chá; e falando a língua do pê. Sempre tramando alguma travessura contra a Rainha de Copas.

Aos dez anos, o armário pareceu ter ficado pequeno demais. Por mais que tentasse, não conseguia mais visitar a Terra do Nunca, nem sentia prazer nas conversas com o coelho e o Chapeleiro. Aos poucos, fui deixando de frequentá-lo.

Minha vida tomou caminhos estranhos desde então. Fui crescendo e tomando uma atitude normal perante a vida. Nada muito diferente do que acontece às pessoas comuns. Me entreguei ao capitalismo selvagem e a falsa sensação de que o sucesso fosse medido pelo saldo da minha conta bancária. Passei pelos vinte anos, anestesiado pelo trabalho e pela cegueira do sucesso. Vivendo uma vida que eu não sabia se era minha. Pelo menos não era a que eu havia desejado. Segui os passos da minha condição social e me deixei vencer pelo cotidiano. É... me tornei um cidadão comum.

Agora, amadureço aos trinta anos, olho para trás e procuro o garoto que sonhava dentro do armário. O garoto que era amigo de Peter Pan e do Chapeleiro, que pregava peças na Rainha de Copas e voava pela Terra do Nunca. E me dei conta, de que esqueci, numa tarde quente do mês de dezembro daquele ano, o garoto trancado dentro do armário, junto com todas as suas fantasias e sonhos. Nesse dia, me entreguei a fazer o jogo do contente.

E agora, neste reencontro, em que me sento dentro do armário, o garoto não fala mais comigo. Fico em silêncio, com os olhos fechados, esperando uma única palavra, uma centelha que acenda o meu coração novamente. Uma chance de que o menino possa recomeçar. Fechei os olhos e me concentrei, por diversas vezes. Nada. O lugar continuava vazio. As portas para a Terra do Nunca e para o País das Maravilhas estavam trancadas.

O menino se foi para o único lugar onde poderia continuar menino e fechou as portas, magoado, com o menino que fazia o jogo do contente. Para mim, o menino que cresceu, só sobrou o armário empoeirado, e a sensação de que o cartaz continuava pregado ali: ADULTO NÃO ENTRA!

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E eu me vejo fluindo entre uma existência e outra etéreo entre mundos entrecortado por visões além túmulo hóstia entre dentes ...

 
 
 

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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