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O Cortejo

  • Conto - Alexandre Pontara
  • 7 de out. de 2020
  • 4 min de leitura

Estava ali, parado. Com aquele olhar de menino que observa uma prateleira muito alta onde repousa o brinquedo dos sonhos. Não havia pressa. Procurava gravar na memória a última lembrança da infância. Momento em que o coração bate apressado, fruto da ansiedade causada por aquele corpo deitado diante de mim. Não sabia ao certo o que o destino me reservava. Abaixei a cabeça em sinal de respeito, pensei em uma oração e aguardei que alguma palavra fosse dita.

Era tudo silêncio.

Estava despido de palavras a observar a mudança com que o mundo ia nublando a minha inocência. Era um aprendiz nessa tal coisa de viver. As lições iam se acumulando no semblante ainda em formação. Havia um desejo de amor que me preenchia e eu só pensava como seria bom se ela me tomasse nos seus braços. Ali me deitaria celeste, anjo, sem maldades.

Na minha pequenez não sabia ser de outra forma que não infância. Enquanto menino me carregava de grandes emoções. Me dedicava aos estudos, ao pique-esconde, aos carrinhos em miniatura e, algumas vezes, me aventurava nas árvores do pasto em busca das mangas e jabuticabas. Era uma época de proibições sem perigos, onde os joelhos e cotovelos sempre ralados representavam minhas feridas de guerra. Todos os aprendizados da infância se descortinaram no seu tempo. Meu coração se acelerou em pequenas histórias vividas em conjunto com os amigos que cresciam descompassados uns dos outros.

Havia matreirice no olhar, na anedota, nas brincadeiras de rua. Sorvia o doce da vida enquanto desbravava o dia. Seguiam-se aventuras no selim da minha monareta. Sempre com o sabor da novidade, da descoberta.

Mas a vida foi amadurecendo meu olhar. Cumprindo suas promessas muito cedo. Ali, diante dela, eu estava nu, como sempre ficava quando era pego em alguma mentira. Eu a observava esperando um movimento, um olhar. Ela mantinha sua aparência serena, com os olhos fechados, como se embalada por um sono tranquilo. E eu, não sabendo o que esperar daquele momento, mantinha uma distância segura de pouco mais de dois metros. Era diferente de tudo o que já havia vivido. Ali permaneci com as mãos suadas, olhos anuviados, a respiração curta esperando que alguém me dissesse o que fazer. O mundo, antes tão grande, se tornara menor, concentrando suas forças naquele pequeno cômodo.

Ela não se movia; a iniciativa deveria partir de mim. Era a minha primeira experiência e eu sabia que aqueles passos me levariam rumo às lições do amadurecimento. A vida se encarregava de envelhecer meus passos. E numa sensação de quase morte, caminhei corajoso.

Sentia o peso da descoberta dolorosa do ciclo da vida. Ali eu me separava da infância e me tornava homem quase que por acaso. Uma das fatalidades do destino que nos impulsionam ao desconhecido e nos preenchem de eterna saudade.

Ela cheirava a flores. Meu coração descompassava com aquela visão. Eu gritava por dentro, preso às memórias de uma infância feliz. Em seu sono profundo, toquei levemente os cabelos longos e negros. Esperava alguma reação. Talvez o abrir dos olhos ainda sonolentos e um leve sorriso nos lábios. Ela era uma das poucas presenças femininas que faziam sentido na minha vida.

Me trazia paz de espírito, sorrisos e me empurrava para a vida sem medo. Às vezes uma palavra mais dura e uma penitência para os meus pequenos pecados. Fui educando minhas ações no seu exemplo. Uma das certezas do amor.

Ali, ela me apresentava sua última lição.

Fechei meus olhos, enquanto um beijo deixava meus lábios. Seu rosto estava frio. Rezei em pensamento os ensinamentos da escola dominical e esperei que de alguma forma minha voz chegasse às nuvens.

Ela partia me deixando homem.

E na singeleza daquele momento em que eu comungava o aprendizado da carne, fui me desfazendo da infância.

Com a carne trêmula, desaguei em profunda dor. O sentido da impermanência me rasgava por dentro e eu regurgitava soluços e tristezas. A lição era dura demais para alguém tão cheio de amor.

A vida se encarregava de criar lacunas e vazios no meu crescimento. A ausência seria presença diária naquele casarão que se aquietava sem o som dos saltos andando apressados pelo piso encerado.

No canto, meu pai observava com um entendimento daqueles que carregam a saudade no peito. Ele também se tornara homem muito cedo.

Ele apenas me olhava. Sabia que para ser homem era preciso chorar.

A tarde foi subindo o céu. Naquele altar improvisado, repleto de flores e castiçais, repousava em trajes brancos a dor da despedida. O entorno rodeado de rostos conhecidos fazia coro ao ritual da partida.

Me permiti um último beijo antes que a tampa fosse fechada. Foi necessário um misto de coragem e paixão. Veio a lembrança dela ainda no leito me dizendo que o chão era o início do contato com Deus. Que, quando eu sentisse que a terra esbarrancava, era só olhar para cima que ela firmava. Esse pensamento fez com que eu fincasse o pé no chão.

O cortejo seguiu pela rua principal rumo ao cemitério. Um desfile de rostos pálidos em total silêncio. Meu pai acompanhava de perto o carro que levava o caixão. Ele não dissera uma única palavra durante todo o dia. Em algum momento, acho que o vi marejar. Ele mantinha aquele olhar de saudade. Eu seguia agarrado ao braço da minha avó materna, na esperança de que aquele toque fosse igual ao dela.

A vida se esbarrancava naquela tarde. Eu olhei para o céu, pensei em Deus, mas o chão ainda era muito novo pra firmar.

E, entre rosas e flores, ela foi se deixando deitar na terra. Cobria-se a vida de sono tranquilo.

Joguei uma última rosa sobre a lápide e partimos. E assim foi a despedida. Agora éramos somente eu e ele.

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E eu me vejo fluindo entre uma existência e outra etéreo entre mundos entrecortado por visões além túmulo hóstia entre dentes ...

 
 
 

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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