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Cartas ao Poeta do Outro Lado do Mundo

  • Conto - Alexandre Pontara
  • 7 de out. de 2020
  • 3 min de leitura

Não há nada mais irritante do que a certeza da morte. Somos ela desde o primeiro instante. Eu nasci morto. Sem choro, sem sofrimento, inerte nas mãos do Doutor Rubens.

Sai de dentro das entranhas de minha mãe sem me mover, sem gritar ou espernear. Não precisei de nenhum esforço. A tal cesária. Uma daquelas estranhas formas de se trazer alguém ao mundo.

Permaneci quieto sem me atrever a respirar. A única forma que encontrei para protestar contra a violência do nascimento. O Doutor Rubens olhava apreensivo. Não sabia se eu estava vivo ou morto. Eu segurei a respiração o máximo que pude, o máximo que era possível a um ser que acabara de sair do útero aguentar. Por fim, a respiração veio e com ela o choro.

Meu protesto soou como música aos ouvidos deles. Que estranha felicidade é essa que o meu choro pode causar a essa gente que nem me conhece? Será que eles aplaudem este meu velório? Este meu derradeiro compromisso com o ciclo da vida? É impossível que não enxergassem nos meus olhos este desencanto. Esta certeza de que não havia vida ali. A hora do meu óbito havia sido decretada às 14 horas de uma quarta-feira de junho. Eu sabia que ali começava a minha morte e que eu permaneceria assim pelo resto dos meus anos.

Imagino a tua surpresa quando recebeu esta minha primeira carta. Deve ter lhe soado estranho a imagem que tenho do meu nascimento. A forma como encaro esta breve passagem a qual fui submetido. Hoje o dia amanheceu com um certo sabor de ontem. Pensamentos misturados, falta de foco na visão mas uma grande certeza de que a trilha finalmente vai me levar onde quero.

Andava meio inconstante, falastrão e intempestivo. Comecei a esboçar o texto de que lhe falei. Creio que ele terá muito de nossas conversas e cafés. Não consigo parar de pensar no que me disse antes da tua partida para este longo exílio.

Deixar a palavra, você disse.

Ainda não sei o que significa, mas sigo tentando. Você sabe que não sou feito de alegrias. Boa parte da minha escrita se baseia nisso. Nesse sentimento de dor e vazio. Você deve ter me achado um pouco duro ao falar do meu nascimento.

Cartas... Sim, eu ainda as escrevo. Faz com que eu me sinta mais real e humano.

O papel tem um quê de religiosidade pra mim. Você tem que ter mais cuidado com a escrita, com a palavra, afinal, qualquer erro pode ser fatal para o papel. Cartas não permitem remendos. O que está ali pode ser passado a limpo, mas será um outro papel, uma outra carta.

Parece algo tão antigo e despropositado perder tempo com uma folha de papel e depois postá-la no correio. Porque eu também as posto. Mando-as sempre aos pares, uma para você e outra para mim.

Pode parecer uma pequena extravagância, mas foi a única forma que encontrei para não me entregar completamente ao esquecimento sem lutar. Meu nascimento. Meu Epitáfio.

Desde o início, eu já sabia que a vida seria líquida. Ora feita de lágrimas, ora feita de destilados. Os destilados foram os únicos momentos de felicidade a que eu me permiti. Entorpeciam a dor através de breves sorrisos alcóolicos.

Eu sei que a esta altura, minha carta possa lhe parecer um pouco confusa. Mas eu a escrevi para que eu também possa me lembrar. Ando com certa dificuldade para coordenar meus pensamentos. Você sabe que se vão dois anos sem que eu tenha produzido uma única linha. E aquilo que eu pensava ser bloqueio criativo... Bem... fui ao médico esta semana. Não preciso lhe dizer que não trago boas notícias, seria ofender sua inteligência.

Meu cérebro está morrendo. Uma doença degenerativa que o vai devorando aos poucos. Sou portador de uma rara condição patológica: a estupidez humana.

Tenho delírios de grandiosidade deste pequeno. Na minha pequenez de infância sonhava ser presidente do país, ser astro de hollywood, mas acabei escritor e poeta. Passei a analisar a vida através da escrita e botar no papel todas as angústias que uma mente sórdida e materialista poderia querer.

Já quis o Prêmio Nobel de literatura sem sequer ter escrito uma única linha de boa literatura. Já quis o Oscar de melhor ator sem sequer ter feito um único filme em Hollywood. Já quis a namorada do meu melhor amigo. Bem... essa eu consegui.

E agora me preparo para o esquecimento. Para o mais completo vazio. Uma pequena extravagância dele. Cartas... será que além de mim, existe mais alguém que ainda as escreve?

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E eu me vejo fluindo entre uma existência e outra etéreo entre mundos entrecortado por visões além túmulo hóstia entre dentes ...

 
 
 

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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