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Juventude Interrompida

  • Crítica - Alexandre Pontara
  • 25 de fev. de 2011
  • 2 min de leitura

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Construir um espetáculo usando como pano de fundo grandes clássicos da literatura mundial não é tarefa fácil e, por vezes, pode resultar em um erro catastrófico. Em se tratando de Shakespeare, mais ainda. Não é o caso da bem sucedida adaptação do dramaturgo norte-americano Joe Calarco para o clássico de Romeu e Julieta, intitulado R&JShakespeare.

O espetáculo, em cartaz no Sesc-Copacabana, no Rio de Janeiro, encontrou sua voz e o tom certo através da hábil direção de João Fonseca. Em cena está o poder da literatura sobre a imaginação e o efeito libertador que ele pode exercer no indivíduo. No elenco, estão Pablo Sanábio, Rodrigo Pandolfo, Felipe Lima e João Gabriel Vasconcellos.

O espetáculo tem como ponto de partida um internato católico masculino onde quatro jovens vivem em regime de repressão, e que se envolvem em uma leitura clandestina de uma cópia de Romeu e Julieta. Pelo fato de ser um texto proibido, o mesmo tem o poder de despertar as emoções nos jovens de uniformes e comportamento padronizados.

A grande beleza da montagem está no jogo cênico estabelecido entre eles. À medida que avançam na dramatização do texto, as próprias emoções assumem o controle e eles começam a explorar os sentimentos e sua sexualidade.

A concepção e a direção de João Fonseca são afinadas e impecáveis. Destroem as paredes e coloca público e atores em cena, construindo um espetáculo cheio de nuances, permitindo que o espectador embarque no jogo proposto. A direção de movimento de Rafaela Amado é interessante e contribui com acerto para a concepção.

A cenografia, idealizada pro Nello Marrese, é brilhante. O palco, em formato circular, nos remete ao elemento base da transformação que se opera, aquele espaço infinito onde é possível se libertar. Ao redor, é possível observar todos os elementos que oprimem e padronizam o indivíduo: carteiras,

lousas, réguas, esquadros. Tudo se transforma diante do público, tudo é utilizado em favor da imaginação. Os esquadros se transformam em máscaras, as réguas em espadas, os prendedores de papel em brincos, os papéis em muros.

O figurino elaborado por Ruy Cortez, que nos lembra muito os uniformes de colégios católicos ingleses, é bem pensado e está de acordo com a proposta. Assim como os próprios adereços de cena, o figurino se converte em peça importante na dramatização dos quatro jovens.

O quarteto de atores se sai bem em cena, com grande destaque para Pablo Sanábio e Rodrigo Pandolfo nos papéis de ama e Julieta, respectivamente. Eles comprovam que são atores de grandes recursos, e que sabem utilizar a criação para construções que transitam sutilmente entre o drama e a comédia.

A iluminação criada por Luiz Paulo Nenen é imaginativa e bem contextualizada na montagem. A luz contribui para a construção da imaginação e tem papel importante na dramatização de Romeu e Julieta. Por fim, a trilha sonora elaborada por André Aquino e João Bittencourt é atual e acertada.

R&J de Shakespeare - Juventude Interrompida é um texto primoroso para ser sorvido aos poucos, sem pressa e com total liberdade. Um texto que está aí para nos lembrar que, mesmo em ambientes opressores, o homem ainda consegue ser livre dentro de si, dentro da sua própria imaginação. Um espetáculo imperdível.

Coluna publicada em 02/2011 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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