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Pterodátilos

  • Crítica - Alexandre Pontara
  • 31 de jan. de 2011
  • 2 min de leitura

2010 foi um ano de qualidade no que se refere à produção teatral no Rio de Janeiro. Tivemos autores consagrados ao lado de novos nomes em textos impecáveis e de grande relevância e contribuição à cultura de nosso país. Bons espetáculos iniciaram sua trajetória e o público pode ter contato com montagens como Rebú, O Matador de Santas, Calígula, Hair, Deus da Carnificina e tantos outros trabalhos de qualidade, mas o mais genial de todos foi, sem dúvida,Pterodátilos, do dramaturgo americano Nicky Silver.

O espetáculo, atualmente, em cartaz no Teatro das Artes, tem direção de Felipe Hirsch. O elenco conta com Marco Nanini, Mariana Lima, Felipe Abib e Álamo Facó. Embora o título possa nos apresentar certa estranheza, sem dar maiores dicas do que se trata a trama, Pterodátilos é uma pérola dramatúrgica dos anos 90. Em cena, vemos a desagregação da família, em uma crítica severa a sociedade americana e a extinção da espécie.

O texto de Nicky Silver é brilhante, recheado de situações cotidianas que beiram ao caos e mostram, cena a cena, os limites das relações estabelecidas entre os personagens que os levam a sua total destruição. Com diálogos inteligentes e carregados de humor negro, Pterodátilos é um espetáculo que põe em xeque nossas próprias relações e como lidamos com o estilo de vida atual.

A direção assinada por Felipe Hirsch é correta e trabalha o absurdo do texto sem se render ao caos iminente, fazendo com que se mantenha o equilíbrio para a plena compreensão do espetáculo. Uma direção com leitura cênica acertada e perfeita.

Os quatro atores em cena apresentam um excelente desempenho, e é possível perceber a perfeita sintonia entre eles. Marco Nanini está ótimo no papel da filha cujo nome a mãe mal consegue se lembrar, e garante os melhores momentos do espetáculo. Mariana Lima no papel da mãe alienada, bêbada e egoísta, constrói uma das grandes performances da temporada de 2010. Felipe Abib no papel de Tom, namorado da filha transformado em empregado, e Álamo Facó, o filho que volta para casa ao se descobrir soropositivo, estão muito bem em cena. Um grupo coeso com interpretações à altura do emblemático texto de Nicky Silver.

A cenografia de Daniela Thomas é inteligente e econômica, contribuindo para o entendimento da desintegração desta família. A retirada do piso, aos poucos, pelo filho soropositivo, nos remete ao sentido de escavar os ossos da própria família, trazer à tona os esqueletos trancados no armário que toda família, por mais perfeita que seja, possui.

A iluminação de Beto Gruel e a trilha sonora de Nervoso contribuem com inteligência cênica para a proposta idealizada por Felipe Hirsch. Por fim, o figurino de Antônio Guedes, bem acertado, está de acordo com a montagem. Pterodátilos é o tipo de espetáculo que merece ser visitado pelo público mais de uma vez, tal o nível de qualidade presente nesta montagem. Um espetáculo de grandes interpretações, texto fascinante e excelente direção.

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Coluna publicada em 01/2011 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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