top of page
Buscar

O Dono de 2010

  • Colunas - Alexandre Pontara
  • 31 de dez. de 2010
  • 3 min de leitura

2010 vai deixando-nos com aquela sensação de que foi um bom ano para o teatro carioca. Sim, este ano tivemos boas produções e espetáculos marcantes na cena teatral para compensar 2009, que não foi lá essas coisas no que se refere à produção. Muita coisa mal feita e de qualidade duvidosa transitou pelos palcos do Rio, que não vale a pena nem comentar ou, como diria o personagem de Nanini em Pterodátilos, isso já passou e é assunto de ontem. Mas 2010 veio recheado de produções que redimiram o ano de 2009, assunto de uma próxima coluna em janeiro.

Para mim, 2010 ficará marcado como o ano em que a crítica especializada se rendeu ao talento de Jô Bilac. "Rebú" e "O Matador de Santas", duas de suas peças que transitaram nos palcos cariocas ao longo do ano, mostram uma escrita madura e inventiva. Seu trabalho pode ser definido como um meteoro de situações cotidianas que irrompe em genialidade estética e literária, onde o banal e o sofisticado convivem em harmonia.

Jô Bilac é um destes autores de fácil convívio e entendimento. Seus textos conversam com o público, chegam de forma simples, divertida e inteligente, sem cair no lugar comum. A cena teatral passou a prestar atenção neste carioca em 2008, com seu primeiro texto de sucesso intitulado "Cachorro", um verdadeiro mergulho no universo rodrigueano, com direção de Vinicius Arneiro e indicado ao Prêmio Shell. A direção não levou o prêmio, mas o nome de Jô Bilac passou a ser presença constante nas rodas de artistas do universo artístico.

Jô Bilac é um destes raros escritores que não se rende ao ego, à babação de ovo, e sempre agradece um elogio com um sorriso tímido. É um artista com simplicidade humana e bom gosto para escolha dos temas e universos que pretende retratar em suas peças. Não nega suas referências literárias e estéticas, que vão de Agatha Christie e Hitchcock a Nelson Rodrigues e Almodóvar.

Ele vem trilhando uma estrada rumo a uma carreira promissora e a um nome que deve se tornar grande referência de dramaturgia nos próximos anos. Com "Cachorro", pudemos perceber que havia talento, mas que a escrita ainda necessitava de um pouco de lapidação, de amadurecimento como escritor. Seguido a ela veio a peça "Limpe todo o sangue antes que manche o carpete", com Bruno Ferrari e Graziela Schmitt no elenco que, infelizmente e por algum motivo, acabei não vendo. Tive a oportunidade de ler o texto posteriormente e ali era possível identificar algumas características de que estávamos diante de um dramaturgo que, a qualquer momento, iria encontrar o tom certo de sua obra.

E esse tom veio, finalmente, com a peça "Rebú", um texto genial levado aos palcos em 2010, que comprova amadurecimento e demonstra que este nome está vindo para ficar. A trama é centrada em torno de um casal que recebe a visita da irmã adoentada do marido que, curiosamente, cuida de um bode cego, é recheada de diálogos inteligentes, concisos e maduros. O foco está na rede de ciúme e nas tensões estabelecidas pelo quarteto. Por este texto, Jô Bilac recebeu a indicação ao Prêmio da APCA e só não deve levar se por alguma ironia o destino não permitir. Tanto o trabalho quanto o texto são primorosos e dignos de reconhecimento.

Além de "Rebú", outro texto de Jô Bilac tem sido incensado pela crítica carioca, o "Savana Glacial". Nesta trama urbana, um jovem casal se muda com o objetivo de resgatar a vida amorosa após um grave acidente. No novo apartamento, eles conhecem uma maquiadora que transformará definitivamente a vida dos dois. Um entregador é o último personagem que completa a intrigada relação entre quatro indivíduos ligados por um desequilíbrio emocional e por uma obsessão, tornando o jogo entre realidade e ficção cada vez mais explícito e perigoso. Esta montagem lhe valeu a indicação de melhor autor ao Prêmio Shell de Teatro deste ano.

E, por fim, outra obra de merecido destaque é a sua mais recente peça "O Matador de Santas", com direção de Guilherme Leme e protagonizado por Ângela Vieira. Um verdadeiro espetáculo almodovariano, com cores fortes, diálogos afiados e inteligência cênica.

E, para 2011, podemos aguardar "O Gato Branco", uma verdadeira caçada ao assassino nos melhores moldes de Hitchcock e Agatha Christie. Um texto que terá a direção assinada por João Fonseca, um dos grandes diretores cariocas da atualidade. Com certeza, um espetáculo que terá todos os elementos para se tornar uma das boas referências teatrais de 2011.

Enfim, Jô Bilac é um nome que vem construindo uma trajetória de sucesso e deve permanecer em destaque na cena contemporânea teatral. Um dramaturgo para ser visto, degustado e aplaudido. O verdadeiro dono da dramaturgia do Rio em 2010.

Coluna publicada em 12/2010 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube
logo_argumento_prosa1.png
© 2015-2024 "apenasumalexandre".
Site oficial de Alexandre Pontara.
Todos os direitos reservados.
assinatura_apenasumalexandre_definitiva_
bottom of page