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Poesia Teatral

  • Crítica - Alexandre Pontara
  • 13 de nov. de 2010
  • 2 min de leitura

Como Drummond costumava dizer, "Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em

Divinópolis".

É a partir desta leitura da obra de Adélia que adentramos seu universo em montagem inédita da Cia. de Teatro Íntimo que, ao completar seus cinco anos de existência, apresenta uma

série de espetáculos do seu repertório no Espaço II do Solar de Botafogo.

O espetáculo, construído a partir da colagem de poesias de Adélia, tem o frescor, a sutileza e delicadeza da obra da escritora. Desde o início, o público é convidado a observar de perto o quintal onde as atrizes Fernanda Boechat, Bellatrix e Gabriela Haviaras nos apresentam um pouco da grandiosidade da poesia falada. Ao adentrar a pequena sala, onde cabem apenas 25 espectadores, é como se estivéssemos no quintal da sua obra.

Ali presente está o varal com as roupas penduradas, a religiosidade do altar, o banco sob a janela, e é possível espiar pela porta da cozinha aberta, onde o cheiro do bolo vai ativando a memória de nossa própria infância. O cenário, idealizado por Melissa Paro, resolve e aproveita bem o pouco espaço, permitindo um contato mais íntimo do público com as atrizes.

Aos poucos, sentimos a delicadeza, o fogo, a sutileza da poesia misturada ao cio constante encarnado pelas atrizes.

As atuações são leves, sutis, permitindo que a grande estrela da noite seja realmente Adélia. As três atrizes apresentam bom desempenho em cena, integradas ao ambiente e a proposta da direção de Renato Farias de forma econômica e correta.

A iluminação de Paulo César Medeiros, muito bem conceituada, complementa a idéia do quintal, onde se é possível imaginar a luz fraca do lampião, as panelas da cozinha a exalar o cheiro da comida mineira, a conversa na soleira da porta, a gente simples do interior contando seus causos.

O figurino de Thiago Mendonça se converte em parte importante deste universo, dando o tom de leveza necessário. E ali, como meros espectadores, sentimos o encanto e a emoção de se degustar boa poesia. A direção de Renato Farias constrói de forma correta e competente este universo mágico tão presente na poesia. Adélia é uma destas raras escritoras que pauta seu trabalho na observação da vida, do cotidiano, do simples fato de existir. Uma escritora sentada à porta de seu quintal, descascando e comendo laranjas.

O espetáculo termina, o bolo e a cachaça são servidos e ali permanecemos repensando nossos causos, revivendo nossa própria infância de interior. Uma delícia de espetáculo a ser degustado com gente, bolo e cachaça.

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Coluna publicada em 11/2010 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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