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Quando a Vida é Ficção

  • Colunas - Fundo do Baú - Alexandre Pontara
  • 29 de out. de 2010
  • 4 min de leitura

São quase duas da manhã e a tela do computador permanece limpa, a folha digital em branco, acusando a minha total falta de ideias para expressar qualquer opinião a respeito da arte. Comecei, apaguei, recomecei e... nada. Nem uma ideia que valha a pena ser discutida.

Nestas horas, penso que ser escritor é mais que um dom, é uma necessidade de desapego de si mesmo. É preciso se expor em palavras para o leitor de uma forma atraente que o instigue a ir até o final do texto. Será que hoje vou conseguir que isto aconteça ou o leitor já clicou com o mouse e foi para outra página?

Tomo um relaxante muscular entre um gole e outro de café. Sei que café às duas da manhã não é muito adequado, mas me mantém acordado. Essa ausência de palavras para escrever me faz pensar em todos os textos teatrais que permanecem inacabados na minha gaveta, alguns por pura preguiça de continuar com o tema, outros por desinteresse e, enfim, aqueles que desisti de escrever na metade, por puro bom senso, poupando o escritor de um vexame público e os leitores de um suplício literário.

Nos últimos tempos tenho me dedicado à construção de um texto teatral que me permita inovar em algum ponto, que mexa nas feridas do ser humano e que mexa, principalmente, com a minha visão de mundo. Não é preciso dizer que tenho fracassado linha após linha num tema que pouco conheço e que não experimentei.

Sempre fui dado a atitudes poéticas e imagens simbolistas e românticas. Creio que isso seja fruto da quantidade de clássicos que li durante a adolescência e dos autores malditos. Sempre falei de amor com muito desapego, numa fixação pelas frustrações do coração, numa obsessão letal pela busca de amores idealizados eplatônicos, sem sequer me permitir falar de lembranças felizes e cotidianas.

Essa preferência pelo lado negro da força se deve a Poe, Cruz e Souza e Eugene O'neill. Com eles aprendi a gostar do canto dos desajustados, do sofrimento romântico e, principalmente, da dor da falta de amor. Está aí uma coisa da qual sei falar muito bem, com cores e tintas dos mais variados tons que existem entre o preto e o cinza. Boa parte desse dom provém da experimentação cotidiana e das frustrações a que me submeto.

Certa vez, uma ex-namorada me disse que eu adorava sofrer. Que o sofrimento era o combustível para justificar a minha total ausência de compromisso. Que eu jogava a carga da responsabilidade do término de um relacionamento no outro. Pensei comigo: Fui descoberto!

Calma que eu explico! Nós havíamos acabado de reatar após pouco mais de uma semana de separação. Logicamente, a semana foi terrível. Me senti mal, chorei minha dor nos meus poemas e crônicas, desejei que o mundo acabasse. Tudo isso em doses cavalares de sentimentos, revoltas, juras de amor eterno e muita mágoa. Boa parte deste dramalhão se deve ao fato de eu ser canceriano com ascendente em escorpião e lua em câncer. Já viu a aguaceira que é?...rs...

Confesso que ao receber o telefonema derradeiro que iria novamente nos unir, fiquei um tantinho decepcionado. Afinal, como iria continuar chorando minhas mágoas. E na primeira oportunidade, ela disse: Você adorou que eu terminei com você e ficou decepcionado quando eu te liguei pedindo para voltar, né? Nesta hora me senti como a criança que é pega fazendo coisa errada. Não preciso dizer que terminamos a relação em definitivo uma semana depois.

Após esta relação, realmente, comecei analisar quais os mecanismos de sabotagem que eu criava e, me descobri, em um confesso fanático por rejeição. Existem todos os tipos de fanáticos. Os fanáticos por futebol, outros por esportes, fanáticos por vinhos, bundas, praias. Eu era fanático por rejeição.

Bastou dizer que não me queria para eu querer ainda mais. Bastou falar que não me ama, para eu criar juras de amor eterno em proporções cinematográficas. Sim, a esta altura o leitor deve estar às gargalhadas, pensando até onde vai a minha loucura.

Creio não haver explicação lógica para isso. As únicas vezes que me apaixonei, foram aquelas em que fui rejeitado. O resto passou muito rápido para eu poder formar uma opinião. Estas histórias me trouxeram toda a carga emocional para escrever sobre a perda, a falta de amor e muito sobre a tristeza. Minhas relações foram meu laboratório e eu o rato sobre constante pesquisa. Creio que minha vida se tornou literatura e eu um personagem de ficção.

E nesta hora me pergunto quantas armadilhas criamos para fugir de um compromisso. Não seria muito mais simples apaixonar-se e ser feliz? Será que este fanatismo é uma forma de evitar a vida adulta e aceitar toda a responsabilidade que vem com ela?

Não acredito ter as respostas para isso. Mas assumo que adoro esse sofrimento todo. Toda a carga emocional que transborda quando sou rejeitado. Talvez, seja hora de direcionar todo este sentimento para o amor e para aquilo que de bom ele tem.

À esta altura, já passam das cinco da manhã, em vez de arte e teatro, acabo falando de mim mesmo. A única conclusão possível a esta altura é perceber que a profusão de textos engavetados reflete minha atitude perante as relações tão inacabadas quanto os textos de que falo delas.

Coluna publicada em 10/2010 - Guia da Semana - Artes e Teatro

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Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

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