top of page
Buscar

Os Doze Trabalhos de Hércules

  • Colunas - Fundo do Baú - Alexandre Pontara
  • 31 de ago. de 2010
  • 3 min de leitura

Ultimamente ando sem muitas ideias sobre o que escrever. Vez ou outra, publico por aqui uma crítica de um espetáculo que realmente gostei, mas, na maior parte do tempo, o meu negócio mesmo é falar sobre essa minha inconstância como artista. Essa confusão de sentidos e incertezas do ser humano que se reverte em escrita, trabalho, desejo, teatro e sabe-se lá o que mais.

O fato é que a carreira de artista no Brasil é muito parecida com os Doze Trabalhos de Hércules. Enquanto em outras carreiras as pessoas tem que matar um leão por dia, na área artística a gente tem que matar uma hidra de lerna. E cada vez que a gente corta uma cabeça nasce outra. Trata-se de um mercado muito competitivo onde não se tem nenhum tipo de garantia ou solidez. A maioria dos atores, diretores, produtores que lê esta coluna, sabe do que falo. Fazer arte no Brasil é uma "arte". Os recursos são poucos e o dinheiro menos ainda, por isso tem tanto ator se virando nos trinta para poder pagar as contas e fazer sua arte com um mínimo de dignidade.

Comigo também não é diferente. Cada sonho, cada desejo, cada objetivo tem que ser muito bem pensado e os riscos calculados. A gente chega numa etapa da carreira em que fazer arte apenas pela arte, sem nenhum tipo de retorno financeiro, já não dá mais. Todo ator quer o reconhecimento, mas quer dinheiro no bolso também. E para chegar nesse ponto ou você passa a se produzir - e aí fazer os trabalhos que realmente quer - ou dá um jeito de assinar um contrato com alguma emissora de TV, símbolo da estabilidade na profissão para grande parte dos atores.

A TV ainda é o veículo que atrai nove entre dez pessoas para esta profissão. Todo mundo quer seu lugar ao sol, ou melhor, seu lugar na novela ou, se não der, pelo menos numa minissérie. E, para chegar lá, neste Olimpo Televisivo, a maioria dos atores vai ter que fazer como Hércules e enfrentar seus próprios doze trabalhos. E neste caminho, não faltam Leões de Neméia, Hidras de Lerna, touros selvagens e javalis.

É um trabalho árduo, diário, de fé em si mesmo e na profissão. O primeiro conselho que dou para qualquer iniciante é que vá ao teatro, vá muito, veja de tudo, não só as suas preferências, afinal, a arte não é feita apenas de seu gosto pessoal. Segundo, aprenda com os clássicos, aprenda com os grandes diretores, autores e atores. Terceiro, estude muito e sempre se atualize, vá ao cinema, veja filmes que se tornaram grandes referências, esteja de acordo com o mercado, se antecipe a ele se puder. Amplie sua visão de mundo. Ator que não tem repertório, não tem o que trocar com os outros.

E, por último e o principal, crie sua própria verdade e seja fiel a você mesmo, pois vai ter muita gente por aí dizendo o que você deve ou não fazer. Em alguns momentos, você vai deixar de acreditar que é capaz de conseguir, questionar seu talento e sua capacidade de querer.

Mas não se engane. Ser ator vai exigir muito de você, muito da sua capacidade e muito da sua fé. E vou lhes contar um segredo que talvez alguns ainda não saibam: tem muito ator vivendo muito bem no mercado sem estar na telinha, gente que acreditou e hoje é reconhecido pelo seu imenso talento em outras áreas como o teatro e o cinema. Afinal, apesar da TV ainda ser o grande veículo que projeta o ator para milhares de lares todos os dias, ainda é para muito poucos. Tem gente fazendo história fora dela. Portanto, acredite em você e faça muito teatro e cinema se você puder. Se a TV um dia tiver que acontecer na sua vida, ela virá até você.

Coluna publicada em 09/2010 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Hercules.jpg

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube
logo_argumento_prosa1.png
© 2015-2024 "apenasumalexandre".
Site oficial de Alexandre Pontara.
Todos os direitos reservados.
assinatura_apenasumalexandre_definitiva_
bottom of page