top of page
Buscar

Textos Raros

  • Colunas - Fundo do Baú - Alexandre Pontara
  • 28 de mai. de 2010
  • 2 min de leitura

De tempos em tempos, algum espetáculo traz algo de novo que nos faz pensar e refletir sobre lugares tão distantes de nossa realidade urbana, mas próximas demais no sentir coletivo. Agreste Malvarosa de Newton Moreno é um destes raros textos que nos brinda com uma poética popular cheia de delicadeza, sentimentos e sensações, possíveis mesmo na aridez do nordeste de que fala. Confesso que fiquei encantado e emocionado com a montagem atualmente em cartaz no Teatro do Jockey, no Rio de Janeiro, e que traz no elenco Millene Ramalho e Rita Elmôr. Um texto que fala de vida tanto quanto fala de morte, expõe situações e pessoas numa simplicidade que vai nos envolvendo, enquanto duas mulheres contam uma fábula, ou seria uma história real? A peça fala sobre a ignorância, o preconceito e o amor incondicional. O nome remete a uma planta chamada Malva Rosa, conhecida no Nordeste por ter poderes para curar os males femininos. A história começa com um flerte no meio da cerca, quando um casal de lavradores descobre o amor. Apesar de perceber que há algo no amor deles que não deveria acontecer, um dia os dois rompem a cerca para viver juntos em um casebre sertão adentro. A direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt do AMOK Teatro é precisa e acertada e garante um espetáculo intenso na fala e no gestual proposto. Quase não se percebe as transições de cena, que são feitas de forma sutil, totalmente integrada a concepção criada pelo AMOK. As atrizes Millene Ramalho e Rita Elmôr defendem seus personagens com grande competência e verdade e, com elas, embarcamos na proposta e na fábula contada. Um excelente trabalho de composição de personagem, o qual podemos ver claramente a influência da direção do AMOK. O trabalho corporal apresentado pelas atrizes é cheio de sutilezas no andar e no gesto que o espectador mais atento deve apreciar. A cenografia e figurino concebidos por Stephane Brodt valorizam o espaço, tem concepção inteligente e aproxima o público da cena proposta. A iluminação de Renato Machado busca manter o clima da aridez do sertão e tem papel decisivo e importante em determinados momentos para ilustrar a fábula que nos é contada. A trilha composta e feita ao vivo tem cheiro de terra, de sofrimento e sabor de chão batido. O texto de Newton Moreno tem força e nos mantém atentos ao que está por vir. Uma das cenas mais emocionantes é o momento em que a verdade sobre Etevaldo nos é desvelada, mas que não tem qualquer importância para a viúva, que enxerga apenas seu próprio amor. Enfim, Agreste Malvarosa fala de amor, mas de um jeito que grande parte de nós nunca viveu, fala da nossa própria ignorância frente ao sentido da vida e do preconceito que existe em cada um de nós. Um grande espetáculo para refletir, se divertir e se emocionar.

Coluna publicada em 05/2010 - Guia da Semana - Artes e Teatro

Agreste-Malvarosa-Foto-Marcos-Souto-Soares-590x393.jpg

Bio

Alexandre Pontara, ou apenasumalexandre como ele costuma assinar, é artista visual, escritor multiplataforma, poeta, ator, diretor teatral e mais um bocado de outras coisas.

Em 2020, em meio a pandemia do coronavírus, assina o roteiro do espetáculo online "Desafio Hitchcock", um formato inovador em linguagem, único no mundo, idealizado pelo diretor André Warwar. Nesse espetáculo, com cortes ao vivo e linguagem que transita pelo teatro, cinema, tv e reality, 7 atores em cena, cada um em sua casa, atuam e transmitem, em tempo real, suas imagens para o diretor, que corta e monta ao vivo. O público tem a ilusão e certeza de que estão todos num mesmo ambiente. Uma experiência imersiva, ao vivo, em tempo real.

Também, em 2020, assina o projeto visual "Entre 4 Paredes", onde através de estímulos fotográficos de artistas e amigos em seu isolamento social, cria releituras em arte visual, com uma potência artística e linkada aos temas contemporâneos. O projeto se transformou em uma exposição na Linha de Cultura do Metrô SP em 2021.

Entre 2018 e 2020, lançou o manifesto transmídia Poética em Transe, em que artistas das mais variadas vertentes dão voz a contemporaneidade da sua poesia e dialogam com os incômodos de uma sociedade midiática. Foi um dos produtores da 1ª edição do Festival Audiovisual FICA.VC, em 2017 no Rio de Janeiro. Entre 2008 e 2011, foi crítico teatral do Guia da Semana.

Como diretor teatral, o foco de sua pesquisa está no trabalho investigativo sobre a interferência da linguagem audiovisual no espaço cênico.

A Cidade das Mariposas, encenada em 2011, marca sua estreia como dramaturgo e diretor teatral. Em 2013, adaptou e dirigiu Fausto Zero de Goethe e assinou a Direção Artística da Ocupação Primus Arte Movimento do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro.

Além de Cidade das Mariposas, é autor dos textos teatrais O Mastim, Doze Horas para o Fim do Mundo, O Processo Blake, Entre Irmãos, As Últimas Horas e Man Machine 2.0, das antologias poéticas “Poemas Mundanos”, “Poesia Urbana” e “Sombras” e do roteiro de cinema “Doze horas para o Fim do Mundo”.

Alexandre Pontara

Artista visual, ator, diretor, poeta de mídias interativas, escritor multiplataforma e uma mente digital.

  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube
logo_argumento_prosa1.png
© 2015-2024 "apenasumalexandre".
Site oficial de Alexandre Pontara.
Todos os direitos reservados.
assinatura_apenasumalexandre_definitiva_
bottom of page